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Marazul

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26
Nov19

Um Adeus Português

Maria

Hoje, ao arrumar alguns livros, deparei-me com um poema de Alexandre O'Neill. Decidi partilha-lo bem como a história que lhe está associado, contada por António Alçada Baptista no livro "A pesca à linha – Algumas memórias."

“…Sei alguma coisa do caso da Nora Mitrani que deu origem a um dos melhores poemas de língua portuguesa. Em 1950, a Nora apareceu em Lisboa. Tinha 29 anos e estava ligada ao grupo surrealista francês…

...Fez uma conferência no Jardim Universitário de Belas-Artes, conferência que o Alexandre traduziu. Não era bonita mas tinha um fascínio de mulher autónoma e rica de coisas, capaz de prender um homem como o Alexandre e de se prender a ele com um amor desmedido, daqueles que vêm mais nos livros do que na realidade…

…Ela queria que ele fosse com ela para Paris. «Vens, ficas cá e depois se vê» dizia ela e ele estava louco para a seguir. Por que não foi? Por causa daquelas coisas inacreditáveis que existiam na vida portuguesa. Ele conta: «A pressão (ou melhor, a perseguição) chegou ao ponto de ser metida uma cunha á polícia política para que o passaporte me fosse denegado, o que aconteceu, não sem que eu, primeiro, tivesse sido convocado para a própria sede dessa polícia e interrogado pelo subinspector Seixas. Seixas usou comigo uma linguagem descomedida. Perguntou-me o que eu ia fazer a Paris. Respondi: - Turismo.

Quis saber se eu conhecia a senhora N.M. eu disse que sim.

Então Seixas retorquiu:

- Se calhar V. quer ir porque esta gaja lhe meteu alguma coisa na cachola.

Com a serenidade que me foi possível, fiz-lhe saber que se enganava, N.M. não era gaja e que eu não tinha cachola.

Pareceu surpreendido. Depois, irritado, mandou-me sair. E assim estive anos sem conseguir passaporte.»

Foi, este facto que fez com que escrevesse Um Adeus Português.

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill, in 'Poesia Completas'

 

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