Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Marazul

Marazul

21
Mar19

Homenagem a Jorge Barbosa no Dia Mundial da Poesia

Maria

No dia Mundial da Poesia, partilho dois poemas do poeta Cabo-verdiano, Jorge Vera-Cruz Barbosa.

O primeiro poema, "Casebre", trata um tema sempre presente em Cabo Verde, a estiagem. 

O poema recorda a seca de 1947/48 que matou milhares de pessoas à fome.

O segundo poema, “O poema do  Mar”, foca a questão da insularidade, o apelo da “terra longe”

Casebre

Foi a estiagem

E o silêncio depois.

Nem sinal de planta

nem restos de árvore

no cenário ressequido

da planície:

O casebre apenas

de pedra solta

e uma lembrança aflitiva.

O teto de palha

levou-o

a fúria do sueste.

Sem batentes

as portas e as janelas

ficaram escancaradas

para aquela desolação.

Foi a estiagem que passou.

Nestes tempos

 não tem descanso

a padiola mortuária

da regedoria.

Levou primeiro

o corpo mirrado da mulher

 com o filho nu ao lado

 de barriga inchada

 que se diria

 que foi de fartura que morreu.

 O homem depois

 com os olhos parados

 abertos ainda.

 Tão silenciosa a tragédia das secas nestas ilhas!

Nem gritos nem alarme

 somente o jeito passivo de morrer!

 No quintal do casebre

 três pedras juntas

 três pedras queimadas

 que há muito não serviram.

 E o arco de ferro do menino

 com a vareta ainda presa.

 

Poema do Mar

O drama do Mar,
O desassossego do mar,
sempre
sempre
dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossa Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
Roncando nas areias das nossas praias,
Batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas…

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!

O Mar!
Saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
Histórias da baleia que uma vez virou canoa…
de bebedeiras, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros…

O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
e ter que ficar!

5 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D