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Marazul

Marazul

02
Mar20

A democracia do PS

Maria

Quando penso que já assisti a todos  os atropelos à democracia, confronto-me com dois casos que me mostram quão enganada estou.

O primeiro - Ana Catarina Mendes mimosear, os seus pares que votaram contra a eleição  de Vitalino Canas para o Tribunal Constitucional, como sendo “forças de bloqueio para o funcionamento de outras instituições”

O segundo - O ministro Santos (não me recordo do nome) ter solicitado, em virtude dos autarcas das Camaras da Moita e do Seixal terem votado contra o aeroporto no Montijo, a alteração  do decreto-lei que prevê que têm voto na matéria os municípios locais representativos dos cidadãos mais diretamente afetados pela construção do aeroporto.

 O decreto – lei em causa, o 186/2007, do tempo de José Sócrates, refere no artigo 5 alínea f) “Parecer favorável de todas as câmaras municipais dos concelhos potencialmente afetados, quer por superfícies de desobstrução quer por razões ambientais;”

O que interessa é garantir que a decisão de instalar o aeroporto no Montijo aprovado pelo Conselho de Ministros não é suscetível de discussão.

Assim sendo, abata-se a forças de bloqueio!

Será que para o PS, a democracia, uma das palavras mais usada por eles, não admite opinião contrária?

 

 

 

05
Fev20

E o meu blog existe há um ano!

Maria

 

Durante anos acompanhei blogs mas nunca senti necessidade de ter um. Prefiro ler a escrever.

Nos finais de Janeiro, do ano passado, a morte cruel de um sem-abrigo, que conhecia de vista, despoletou a vontade de ter um blog para lhe prestar uma pequena homenagem. Publiquei um pequeno texto, Indiferença

Não me arrependi. É gratificante. “ conheci” pessoas fantásticas!

Muito obrigada a todos que por cá passam.

A minha gratidão a todos que me permitiram, ao longo deste ano, ler textos deliciosos, enriquecedores e cheios de humor.

Muito obrigada, Manuel, onde quer que esteja, por me ter permitido conhecer a " família Sapo".

 

 

30
Dez19

Bom Ano

Maria

stavanger.jpg

Stavanger ( Noruega)

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido).

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior).

Novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo.
Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade

23
Dez19

Um conto de Natal

Maria

Aceitando o desafio da imilva, atrevo-me a escrever um Conto de Natal.

"Conto que dedico aos que eram crianças há 40 anos, que viviam em zonas recônditas, em cujas casas (herdadas dos antepassados, antigos escravos, que ousavam fugir aos donos e se refugiavam no topo das serranias em locais de difícil acesso de modo a dificultar a sua captura) sem eletricidade nem água, vivendo na maior pobreza, não tinham como celebrar o Natal."

 

O sol já ia baixo. À porta da escola primária, um grupo de crianças, com fatos domingueiros, esperava, em grande alvoroço, a única carrinha da aldeia que as levaria à cidade para verem as decorações de Natal e as montras repletas de brinquedos.

A certa altura, em uníssono, ouviu-se, dja txiga, dja txiga! (já chegou, já chegou!). Com o ruído típico de motor já cansado de tanta idade e tantos quilómetros percorridos em estradas estreitas e esburacadas, a carrinha estacionou junto à escola.

Uma hora, após uma viagem animadíssima e ruidosa, já a noite caia, a carrinha iniciou a subida para cidade, que se estende por um planalto.

O entusiasmo das crianças era contagiante. No jardim principal estacionou e o foi o deslumbre.

As acácias, as únicas árvores que resistem à estiagem, com a sua inclinação para oeste, consequência das lestadas, estavam iluminadas com lâmpadas multicolores e as ruas engalanadas com motivos natalícios foram as primeiras a serem brindadas com um ohhh!

De repente, uma loja repleta de brinquedos atrai-lhes a atenção, com um sorriso rasgado, os olhos brilhantes, o nariz esborrachado no vidro, olham os brinquedos, que sabem nunca terão. O comboio que rolava nos carris, as bonecas com grandes olhos e longos cabelos, ursos de peluche, carros de vários modelos e cores.

A voz da professora acorda-as do sonho, têm de regressar, o caminho é longo e a estrada estreita e sinuosa.

À entrada da carrinha um Pai Natal aguarda-as para a última surpresa do dia. No grande saco vermelho,  presentes para cada uma. Uma "sombrinha" de chocolate (a maioria nunca tinha comido um chocolate) e um brinquedo  "de verdade”. Carros com portas que se abriam, muito diferentes dos que, laboriosamente, faziam com restos de arame e latas recolhidas em qualquer lixeira, bonecas com grandes olhos que “abriam e fechavam” e longos cabelos sedosos, nada parecidas com as que as mães faziam com trapos velhos, olhos pintados com restos de carvão e cabelos de fiapos de lã.

Cansadas, mas felizes, beijaram a professora e agradeceram o Natal que lhes fora proporcionado, o cansaço venceu a euforia. Adormeceram a sonhar com próximos Natais.

Um brinquedo feito com arames e latas de"azeite português"

bike.jpg

"

13
Dez19

Que ferro! Rodrigues

Maria

Fiquei estupefacta ao ouvir as notícias!
Vergonha foi o modo como tratou ou destratou o Sr. Deputado André Ventura.
Goste-se ou não, foi eleito democraticamente (palavra que o Sr. tanto usa) não caiu de paraquedas, nem tomou assento no Parlamento, que o Sr. preside, com um golpe de cintura.
Ficaria bem um pedido de desculpas, mas, pelos vistos, humildade não está no seu ADN e no do partido a que o Sr. pertence!


26
Nov19

Um Adeus Português

Maria

Hoje, ao arrumar alguns livros, deparei-me com um poema de Alexandre O'Neill. Decidi partilha-lo bem como a história que lhe está associado, contada por António Alçada Baptista no livro "A pesca à linha – Algumas memórias."

“…Sei alguma coisa do caso da Nora Mitrani que deu origem a um dos melhores poemas de língua portuguesa. Em 1950, a Nora apareceu em Lisboa. Tinha 29 anos e estava ligada ao grupo surrealista francês…

...Fez uma conferência no Jardim Universitário de Belas-Artes, conferência que o Alexandre traduziu. Não era bonita mas tinha um fascínio de mulher autónoma e rica de coisas, capaz de prender um homem como o Alexandre e de se prender a ele com um amor desmedido, daqueles que vêm mais nos livros do que na realidade…

…Ela queria que ele fosse com ela para Paris. «Vens, ficas cá e depois se vê» dizia ela e ele estava louco para a seguir. Por que não foi? Por causa daquelas coisas inacreditáveis que existiam na vida portuguesa. Ele conta: «A pressão (ou melhor, a perseguição) chegou ao ponto de ser metida uma cunha á polícia política para que o passaporte me fosse denegado, o que aconteceu, não sem que eu, primeiro, tivesse sido convocado para a própria sede dessa polícia e interrogado pelo subinspector Seixas. Seixas usou comigo uma linguagem descomedida. Perguntou-me o que eu ia fazer a Paris. Respondi: - Turismo.

Quis saber se eu conhecia a senhora N.M. eu disse que sim.

Então Seixas retorquiu:

- Se calhar V. quer ir porque esta gaja lhe meteu alguma coisa na cachola.

Com a serenidade que me foi possível, fiz-lhe saber que se enganava, N.M. não era gaja e que eu não tinha cachola.

Pareceu surpreendido. Depois, irritado, mandou-me sair. E assim estive anos sem conseguir passaporte.»

Foi, este facto que fez com que escrevesse Um Adeus Português.

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill, in 'Poesia Completas'

 

21
Nov19

Escaroupim - Aldeia Avieira

Maria

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"...Incerto o pão na sua praia, só certa a morte no mar que os leva, eles partem. Da Vieira de Leiria vêm ao Ribatejo. Aqui labutam. Alguns voltam ainda, roídos das saudades do seu Mar. Muitos ficam. Avieiros lhes chamam na Borda de Água..."

                                                                               Avieiros- Alves Redol

20
Nov19

Serra da Lousã

Maria

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Em Todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.
 
                               Mário Cesariny

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